Corrente Literária




#LerValeAPena


Autora convidado: Tatiana Honorato


Em nome de Deus 

"Se existia um homem de fé inabalável, esse homem era o Pastor Júlio, filho de católicos fervorosos, foi batizado ainda bebê, quando ainda não fazia ideia do que era Deus, religião, céu ou inferno, e seus interesses se resumiam aos seios da mãe, fartos de leite, e o alívio de ter as fraldas limpas. Aos onze anos, fez a primeira comunhão, respeitando o desejo materno. Aos quatorze, apesar de um pouco mais rebelde, acabou por mais uma vez, obedecer o desejo da mãe e recebeu o sacramento da crisma. Mas, foi aos dezoito anos que encontrou sua verdadeira fé, ao voltar da casa da namorada, onde a beijou fogosamente por longos minutos, sonhando que os lábios que sugava com paixão eram de Daniel, seu amigo de infância, passou por uma igreja montada na garagem do seu vizinho. A igreja nada mais era do que um conjunto de cadeiras brancas de plástico e um púlpito onde um homem gritava a plenos pulmões para meia dúzia de ouvintes.
- Irmãos, podemos mentir para nossos pais, amigos e até para nós mesmos, mas nunca se mente para Jesus, ele conhece nossos corações e nossos segredos. Então, meus irmãos, se desejam alcançar o reino de Deus, arrependam-se verdadeiramente dos seus pecados e aceitem Jesus Cristo como seu Salvador!
O jovem assistiu o resto do culto ali da calçada mesmo, na semana seguinte sentou -se na última fileira de cadeiras, um mês depois já louvava ao Senhor na frente da igreja. Dez anos depois, fundou sua própria igreja. 
Iniciou em um pequeno galpão alugado, muitas vezes ministrou cultos para uma plateia de apenas dez pessoas, sendo uma delas, sua esposa e maior incentivadora. Era uma jovem de feições delicadas e corpo miúdo, com longos cabelos negros presos em uma trança, seria até bonita se não fosse pela postura sempre encolhida, com as costas meio dobradas e ombros tensos, mais parecendo um animal acuado por seu predador. Ele não a amava, era verdade, mas o amor nada tinha a ver com casamento, e ela era uma boa mulher, fiel e obediente, e uma ótima mãe para seus dois filhos e acima de tudo, temente a Deus. Quando ele acordava suado e excitado por um sonho indevido, jejuava. Quando era vencido pelo pecado da luxúria, saindo à procura de homens que o saciariam por alguns trocados, punia sua carne para limpar-se do pecado. Não raramente, punia sua esposa por não ser capaz de lhe saciar o suficiente, o fazendo querer procurar outro tipo de satisfação. A pobre mulher nem ao menos sabia o porquê de estar sendo castigada, mas aceitava as punições com sua submissão característica!
Não demorou ao Pastor Júlio receber sua recompensa por ser um servo tão fiel. O relógio em cima do criado mudo marcava 3 h da manhã quando ele foi despertado por uma voz doce chamando seu nome. Levantou-se da cama e caiu de joelhos, diante dos seus olhos estava Jesus Cristo, envolto em uma luz branca que dificultava a visão do seu rosto, mas suas chagas eram nítidas, assim como o fio de sangue que escorria delas e que, curiosamente, não chegava a pingar no chão..."

Tatiana Honorato / SP
Escritora 

Conto disponível na Antologia 
Livro Entre o Bem e o Mal
Editora Illuminare

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Autor convidado: Herlon Oliveira


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      Aurora        


Já tinha amanhecido há algum tempo, o sol entrava vivo e radiante pela grande parede envidraçada que havia no quarto. Ali deitado, um homem à beira dos seus oitenta anos, passava o tempo ouvindo os pássaros em uma árvore do outro lado da janela, se distraia com a cantoria enquanto esperava sua visita que se tornara mais frequente na última semana, de certa forma e a sua maneira ele já estava sentindo a falta de sua amiga, normalmente ela vinha assim que o sol raiava. Carinhosamente ele a apelidou de Aurora, seu nome ele já sabia, no entanto preferia chamá-la de Aurora, pois os primeiros raios da manhã sempre a traziam. 



       Levantou-se com um pouco de dificuldade, suas pernas já não tinham mais aquela destreza, o dia estava ensolarado, especialmente bonito, nuvens esparsas no céu, raios de sol vencendo as frestas entre as nuvens em um balé entre luz e sombras, mas o dia não era sombrio, era um daqueles dias em que você sente a energia de tudo a sua volta, revigorante, o velho homem sentiu um (...) 






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Herlon Oliveira /MG
Escritor




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Insta @



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Autora convidada: Laisa Kaos



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Verde



meus olhos gostam da tua pele

minha pele gosta dos teus olhos repousados nela

e vem brotando a palavra como brota gozo

umedecendo a palavra-língua

nasce espremendo o gemido que pula do abraço chapado

corpo com corpo

sexo com sexo

teu tato me cheirava por baixo como se me assumisse saudade

e do meio das pernas 

saía um eu também 


sussurrado

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Laisa Kaos / SP
Escritora e fotógrafa



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Site da Laisa
Instagram @lai_kaos



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Autora convidada: Dia Nobre






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Todos os Desejos Não Realizados



samba-canção recitada

num beco
‘taí eu fiz tudo
pra você gostar’
de cima da torre
mais alta
da cidade soteropolitana
eu me atiro
(aos teus pés)
me dispo
me jogo
me afogo
em cervejas e cigarro
debaixo da chuva
no meio da rua
num ônibus lotado
teu veneno refletido
no espelho quebrado
é uma rima
pra você que não
entende poesia
e eu que nem sou poeta
te contei todos os meus segredos
em quatro horas
de gozo eterno
como se fosse um
roteiro do Manara
ao anoitecer
nesta faith city
que poderia ser
salvador ou crato
linhas de uma mão fina
que não revela futuro
ou passado
só o presente
que passa ligeiro
como um fio de cabelo
entre os dedos.

      - dos desejos não realizados



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Dia Nobre / PE


Escritora e professora em universidade pública

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Autor convidado: Jim Carbonera




"As pessoas não estão acostumadas com discórdia e querem nos obrigar a compactuar da mesma opinião que elas. Basta ter um julgamento diferente e pronto, você será considerado preconceituoso e estúpido."



— Trecho do livro Verme!

Veja + sobre o autor na seção Jim Carbonera 



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Autor convidado: Guilherme Pierobon



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O Amor

O amor não tem explicação
Cada um sente de uma maneira
Cada um sente uma diferente emoção

O amor não tem explicação
É quando se fica feliz ao ouvir aquela voz
É quando olhar e bater mais forte o coração

O amor não tem explicação
É borboletas na barriga
É a mais pura emoção

O amor não tem explicação
Amor de pai, amor de mãe, amor irmão
Ou quando conhece uma linda paixão

O amor não tem explicação
Mas quando sentimos não tem nada igual
Tem coisas que não precisamos explicar

Pois todos já sabem que é bom

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Guilherme Pierobon / SP
Escritor
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Autora convidada: Alessandra Vasconcelos



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Para Amar, Basta Saber Cuidar

O amor pode ser dolorido. Antes tinha flores no Jardim, você vinha, as cheirava, principalmente as regava. Tinha seu toque, a sua importância, o seu olfato... e foi assim, todos os dias, até mesmo quando as flores murchavam, parecendo tristes. Mas o sol raiava e a felicidade chegava de novo. Isso se tornou um vício pra você e um vício pra mim. Esperava você todos os dias, mesmo nos dias chuvosos, eu sabia que você viria. Meu jardim te ansiava, te esperava como nunca esperou alguém. Quando você se atrasava era um sufoco, mas sabia que você viria.
            Algo aconteceu com você, já não vinha com tanta frequência, já não prestava tanta atenção no aroma, não dava tanta importância, já não era mais meu jardim que aonde você ia, o jardim que você realmente queria. Tem dias que você vem, sente até o aroma, mas esquece o toque. Outrora toca, mas esquece de sentir o aroma, e cadê a importância? Só de você estar ali já não era mais suficiente pras flores se alegrarem, você estava ali, mas seu coração não mais, mas o que doía era você saber como eu estava, murcha, e esquecer-se de regar.
             Hoje nem o sol alegra, tudo é um vazio, parece mais vazio ainda quando você está por perto. Preferia que me deixasse a não sentir teu afeto e esperar que outras mãos me reguem!
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Alessandra Vasconcelos / SP
Escritora. Compositora. Cantora.
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Autor convidado: Gustavo Francisco

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Marca Páginas

 Mais importante do que ler, creio que seja marcar. 
Como carimbar, tatuar, sulcar a pele, o livro, o espírito, a falsa quietude de minha mente que mente compulsivamente a si mesma? 
Mentir é dizer o que não se sente, mas de tanto mentir, posso vir a crer. 
Marquei as páginas de um livro com minha CNH velha e vencida, com um velho rosto vencido, que não mais me pertence e, ainda assim, é inteiramente meu. 
Meus traumas, minhas marcas, minhas cicatrizes e feridas ainda abertas.
Não morri de infecção, porque minha mãe é enfermeira. 
Não morri de depressão, porque minha alma é guerreira. 
Marquei outro livro. Esse com um pedaço da caixa de remédios, que nem me pertence, porque minha cura a de vir por outras fontes.  
No signo d'alma, na pegada, na estrada rasgada na epiderme, que muitas vezes nem quis caminhar. 
Marquei terceiro livro, com pedaço de lenço, porque finalmente me permiti chorar. 
Finalmente me deixei sentir e amar. 
E para dizer a verdade a mim mesmo, confesso o quanto devo à jornada nessa autoestrada que me trouxe até aqui. Ainda que cheia de buracos. Ainda que cheia de barreiras e desvios. Ainda que, em mãos, meu segundo e talvez último ticket de passagem. 
Senhora Vida me moldou com cada solavanco do meu querido ônibus velho de guerra, que ousou cursar caminhos esburacados em terra. Que trilha ruas de piso intertravado e que tão assim deixou-me travado ao mundo, com a tristeza escorrendo pelas finas fendas da montagem de meu ser. 
Dou até logo à Morte, pulo amarelinhas ao som do Destiny e monto o quebra-cabeças de minha essência com titã Cronos, sem nunca terminar. 
E quanto mais procuro as peças, percebo quão sou cru nos dias em que não há marcas a serem cravadas; feridas a serem cicatrizadas; e dores a serem afagadas. 
Percebo quão estou, constantemente, cru e nu, como no dia em que nasci e nos que deixo de viver. 
Percebo quão titã sou por curvar-me a mim mesmo, sem nunca findar o tempo. 
E é por isso que digo. Mais importante do que ler, são as marcas. 
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Gustavo Francisco / SP
Escritor
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Autor convidado
Fala aí Vicent!
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Eu Escrevo Quando Fito Os Olhos No Abismo      


Eu não escrevo sempre, geralmente é quando o abismo me olha e não desiste de mim até que eu não consiga mais ignorá-lo. Em termos cotidianos é quando términa Stuck in Love pela décima vez e Froid não tem nada de novo pra cantar no meu ouvido. É quando eu encontro a solidão povoada de Baudelarie e eu zero o feed de todos os aplicativos. E quando o cigarro apaga e a bebida acaba. Nesses momentos eu transcendo a um céu metafísico, fito o abismo e tenho a percepção que nada das coisas que fazemos me veste sentido. É aí que eu escrevo, e a verdade é que eu nem tenho gostado tanto disso, mas ultimamente, me vem parecendo uma neurose cada vez mais necessária.

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Vicent / MG
Escritor
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Insta - @_vicent / @_nointerior





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Autora convidada
Fala aí Karine!
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A Teia dos Sonhos



Prólogo



Tem dias que são mais difíceis que os outros... Se eu tivesse que escolher uma palavra para definir o mundo, seria, em letras gigantescas, INJUSTIÇA. Às vezes, a vida parece funcionar numa lógica maluca em que as pessoas boas fazem parte de um grupo, muito dedicado, que cava um buraco, subterrâneo e profundo, rumo aos infinitos problemas, às frustrações, às decepções. As coisas ruins acontecem, faz parte do ciclo da sobrevivência humana, da seleção natural, do que quer que seja. Quem se adapta melhor aos contratempos vive mais. Mas sabe aquela sensação de olhar pra alguém e pensar ele não merecia toda essa infelicidade? Pois é... A tristeza tem família grande... Anda junto com a angústia, com a desilusão, com a melancolia... 



Pode ser bom aluno, bom filho, bom irmão, bom amigo, e, mesmo assim, existirão horas em que a vida parecerá se voltar contra você e o deixará sem saída. Nem todos os talentosos alcançam o sucesso. Nem sempre acreditar é suficiente. Nenhuma solução. Nenhuma vontade de continuar. Nenhum motivo tão importante a ponto de valer a pena ser forte e resistente. 



Uma sala escura se forma em nossa frente, o olhar nada mais consegue ver, qualquer barulho se torna um zunido interminável. A cabeça dói, o corpo quer apenas deitar na cama. Enquanto dorme, acha que não pensa. Se pudesse chorar, talvez, fosse mais fácil, mas as lágrimas estão perdidas em algum baú dos olhos. Um grito, que também não consegue sair. Silêncio. Silêncio. Silêncio. Porque ficar calada parece inevitável diante de tantos vai e vem ruins. (...)
_

[Este livro está disponível para download gratuito, contate e 
escritora ou mende um e-mail pra gente solicitando a obra]
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Karine Aragão / RJ
Escritora
Conheça mais o trabalho de Karine Aragão em:


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Autor convidado
Fala aí Jim!
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Odeio quem esconde a realidade ou tapa os olhos para ela. Interesso-me mais pela parte obscura e tenebrosa dos indivíduos, pois é nela que se revela o ser humano que tanto desejamos esconder. Nossos defeitos são chaveados a sete trancas. Não gostamos de encarar nossa veracidade natural. É vergonhosa. Então, melhor deixá-la ali, quietinha, sem alarde, assim nos encaixamos melhor nas exigências sociais, como bons cordeirinhos que somos.
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Jim Carnonera / RS
Escritor
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Insta - @jimcarbonera


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Autora convidada
Fala aí Bruna!
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A vida é feita de inícios e fins.

No entanto, o que molda uma pessoa é o que acontece em meio aos extremos.

Alegrias, tristezas, sensações, aventuras, desventuras e emoções.
Do Nascimento ao Epitáfio: sua vida do princípio ao fim.
O que vale a pena contar se você só tiver um minuto? O que vale a pena escrever se você só tiver mil caracteres? Prostração para alguns, incentivo para outros.
Sua vida vale uma história, conte-a!

Livro "Do Nascimento Ao Epitáfio"
Organização Bruna Giroldo.
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Bruna Giroldo / SP
Escritora. Estrategista de Carreira para Escritores
Criadora do Portal da Escrita.
Conheça mais o trabalho de Bruna Giroldo
Insta - @giroldobruna


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Autora convidada
Fala aí Ary!
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Nosso amor é insistência
É baldeação,
integração
É eu pegando 3 horas de busão pra te encontrar
e transferência
E torcendo pra ter um pouco mais de paciência
Mas mesmo assim é tão bonito
e às vezes eu nem acredito
eu ainda acho que tô dormindo
Eu sonho com você tantas vezes
Que quando eu te vejo
Ou dos teus pais que tavam inspirados em casa?
E eu sei que cê é mó metido
Mas eu acho graça quando cê se acha
A culpa é de Deus que te deu esse sorriso
Pulando no peito
Quem sabe meu coração fica mais tranquilo
Naquele momento quando a gente se encaixa
Parece que tem asa
Porque agora ele tá passarinho
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Aryani Marciano / SP
Multiartista. Compositora. Cantora. Instrumentista.
Conheça mais o trabalho de Aryani Marciano:


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Autora convidada
Fala Anna!
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trouxe o olhar pra dentro
relutei
querendo ou não, mas
precisando, olhei
e a solidão, também sozinha
correu atrás de mim
abraçou-me trazendo uma angústia
-  aquela do desconhecido – 
com que me alimentei até essa 
não mais existir; 
já tinha entendido!
ganhara sentido e até nome
passara a se tornar uma dor
 - aquela do conhecido – 
a maturação do pensamento
do querer, do sentimento
do entender, do voltar a si até não mais poder
e sair despedaçada, mas, desta vez, com norte pra juntar os pedaços
não é tão diferente dos demais ciclos
mudamos os nomes
e renovamo-nos feito água corrente, sim!
mas, nossa essência pulsante, pensante humana
pede como num rompante
que sigamos
ressignificando
entendendo nossos questionamentos mil 
ora como significados
ora, significantes.
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Anna Bueno / SP
Cantora. Instrumentista. Compositora. Arte educadora
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